sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Conversa de sofá mais uma vez




Na última quarta-feira, o jornalista Érico Firmo, editor Adjunto do Núcleo de Conjuntura do jornal O Povo, ao analisar postura do Líder do Governo Cid Gomes, usou de uma metáfora que considerei machista. Ele dizia que o Parlamentar agia como aquele marido que chega em casa, encontra a mulher com o amante no sofá e joga o sofá fora. Reagi sobre a metáfora na minha página do twitter e o jornalista viu o recado. Hoje, dedica metade de sua coluna para desqualificar minhas colocações. Entendo que minha resposta já parte de um patamar desigual, posto que não possuo qualquer inserção em periódicos, mas insisto em dialogar com Érico, sem pretensão de chegarmos a um consenso.

Primeiro, é preciso fazer uma leitura política da postura do Deputado Antônio Carlos. Como dirigente petista e porta voz do Governador Cid Gomes na Assembléia Legislativa, tem a missão de mediar os interesses dos Governos estadual e municipal, este último encabeçado pelo PT. Para isso, não lhe interessa entrar em polêmicas ou apontar culpados por incongruências institucionais entre os níveis de governo, até porque, a principal expressão do governo que ele lidera pediu que seus interlocutores não polemizassem sobre as tais incongruências, pois ele, como Chefe do Executivo Estadual, trataria disso com a Chefa do Executivo Municipal.

Segundo, é necessário reconhecer que há setores da imprensa que, por vezes, carrega um pouco mais nas tintas, colorindo as coisas com matizes mais fortes do que de fato são. Ao Érico, expressão de uma nova geração de analistas políticos, não atribuo esses pincéis.

Por fim, vamos ao machismo. Não tenho, até hoje, qualquer motivo privado para considerar que Érico Firmo seja machista, mas não pude deixar de observar que sua metáfora, ao dialogar com o mito do corno, cantado em prosas e versos na nossa cultura popular, reforça todos os estereótipos machistas que as piadas de corno trazem. Tais anedotas partem da visão hegemônica como as mulheres são tratadas na sociedade. A construção social de gêneros parte de uma falsa moral burguesa, que coloca as mulheres numa dualidade: putas ou santas, mães ou madrastas, marias ou evas. Também atribui que às mulheres cabe a obediência e servidão aos seus homens, o mundo do privado e de cuidados. O lugar dos homens seria o mundo público, da rua e eles devem ser machos, viris e poderosos. As piadas de corno reforçam essa visão e têm, nas entrelinhas, o seguinte recado: toma jeito de macho!

Érico afirma que poderia ter invertido os gêneros dos entes na anedota, mas não o fez para não perder a piada, pois enquanto a marca de corno é rechaçada,a traição masculina é vista como algo natural e a prova disso é que até bem pouco tempo atrás, somente o adultério feminino era tido como crime no nosso código penal.

Que as próximas incursões humorísticas sejam politicamente corretas. Se os papagaios podem desagradar ambientalistas, sugiro fazer gracinha com uma ave parecida, o tucano.

Ticiana Studart, feminista, membro da Executiva Estadual do PT CE

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